Machen e o Libertarianismo Cristão

Autora: Kerry Baldwin, pesquisadora e escritora independente com bacharelado em Filosofia pela Arizona State University. Seu site é MereLiberty.com com foco na filosofia libertária e na teologia reformada. Ela é Presbiteriana Ortodoxa Cristã Reformada Confessionalmente na tradição de J. Gresham Machen (1881-1937), um libertário franco e defensor da ortodoxia cristã.

Tradutor para espanhol: Eliud Bouchant, cristão, Batista Confessional, liberal com viés a visão libertária e conservador em relação as questões sociais e morais. Proprietário do site Ciudadano Cristiano

Tradutor para português e adequações: Miguel Angelo Pricinote, pesquisador e autor do livro Cristão Libertário com bacharelado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás e mestrado em Transportes pela Universidade de Brasília. Proprietário do site Gadol Elohai com foco em libertarianismo, mobilidade urbana e teologia. É calvinista reformado.

Nós libertários muitas vezes nos perguntamos onde estamos no chamado espectro político. Tendemos a nos sentir "liberais entre conservadores" e/ou "conservadores entre liberais". Mesmo entre os libertários, uma forma de paradigma Esquerda/Direita às vezes pode ser encontrada, e um tipo similar de paradigma binário existe também na igreja. Protestantes liberais e evangélicos fundamentalistas estão em desacordo há mais de um século e agora os debates sobre nacionalismo e marxismo estão surgindo, mesmo na comunidade reformada. Então, o que está acontecendo e como os libertários cristãos respondem? A resposta pode ser encontrada, em parte, em um dos primeiros libertários cristãos, J. Gresham Machen.

J. Gresham Machen (1881-1937), resistiu a esse paradigma tanto na esfera do governo civil quanto na da Igreja, ao lutar contra o liberalismo [1] e o fundamentalismo. Machen observou os paralelos entre a teologia liberal e a esquerda política, e a teologia fundamentalista e a direita política. Em ambos os lados, as crenças religiosas alimentaram ideologias políticas hostis à liberdade, particularmente à liberdade religiosa. Machen se opôs fortemente a ideias que comprometiam as funções próprias da fé cristã e do governo civil e, portanto, se opunha a esses dois movimentos nas esferas da Igreja e do Estado.

Machen contra a Teologia Liberal

Independentemente de sua posição política, Machen é mais conhecido por ajudar a fundar o Seminário Teológico de Westminster em 1929 e a Igreja Presbiteriana Ortodoxa em 1936. Ele se opôs veementemente a muitas tentativas de fazer o Estado crescer, tanto na esquerda quanto na direita, e descobriu que o a teologia conduziu essas tentativas. A Teologia Liberal, que em parte questionava a inspiração das Escrituras, também mudou a compreensão da relação entre a Igreja e a sociedade. Na qual pretendia aproveitar a instituição do Estado para resolver os problemas para os quais os cristãos são chamados, como cuidar dos pobres, curar os doentes, etc.

E ao questionar a inspiração das Escrituras, a Teologia Liberal abrigou uma tolerância teológica que afastou a doutrina das normas confessionais protestantes que foram aceitas na época por vários cismas do movimento luterano original, incluindo anglicanos, presbiterianos, congregacionalistas e outros. A teologia liberal deu origem a um evangelho social, que se assemelhava ao que conhecemos hoje como socialismo, e Machen acreditava que esse evangelho social destruiria as liberdades da sociedade.

Machen era amigo da família de Woodrow Wilson, mas se opôs ao patriotismo belicista de Wilson , que comparava o sacrifício de sangue de Cristo na cruz ao sangue derramado pelo soldado no campo de batalha. (E você pensou que era uma coisa conservadora que começou com o 11 de setembro).

"Politicamente, Machen se opôs ativamente à criação de um Departamento Federal de Educação e leis de trabalho infantil por causa da ameaça que o excesso do governo representava para a família." - Kerry Baldwin

“Eles nunca parecem perceber que este não era um homem pecador, mas o Senhor da glória que morreu no Calvário. Se eles percebessem, eles poderiam alegremente confessar, como os homens costumavam confessar, que uma gota do precioso sangue de Jesus vale mais, como base da esperança do mundo, do que todos os rios de sangue que correram pelo campos de batalha. da França». (J. Gresham Machen: Select Shorter Writings, Q&A, 2004, 378)

Em uma biografia de Woodrow Wilson [2] escrita pelo professor de história da Baylor University Barry Hankins, o autor explica: "Quando [Wilson] disse que Cristo veio para 'salvar o mundo', ele quis dizer isso no social e no coletivo. E a democracia foi o meio para esta salvação social».

Politicamente, Machen se opôs ativamente à criação de um Departamento Federal de Educação e leis de trabalho infantil por causa da ameaça que o excesso do governo representava para a família. E embora se recusasse a testemunhar ao lado dos fundamentalistas no famoso julgamento de Scopes (sobre o ensino da evolução darwiniana nas escolas), ele se opôs aos esforços científicos usados ​​para aumentar o poder e o papel do Estado. Ele também se opôs ao uso de instituições de grande porte, como o Estado, para construir uma sociedade cristã, seja baseada no evangelho social da esquerda ou no legalismo da direita.

"Sua resistência ao paradigma da falsa escolha de Liberalismo versus Fundamentalismo, Esquerda versus Direita, tem raízes profundas na Reforma Protestante, que poderia ser vista, em uma visão geral, como uma resistência tanto ao legalismo fundamentalista da Igreja Católica Romana e à resultante oscilação do pêndulo do universalismo desde a controvérsia arminiana do século XVII" - Kerry Baldwin

A oposição de Machen a Teologia Liberal permaneceu intelectual e religiosamente. Como o historiador da Igreja Presbiteriana Ortodoxa DG Hart aponta, Machen “desmascarou o moralismo e o idealismo americanos em bases teológicas; um feito que os intelectuais não convencidos pela ortodoxia protestante não puderam tentar e que os fundamentalistas dedicados a estabelecer uma América cristã não foram capazes de realizar." Teologicamente, Machen defendeu tanto o intelectualismo quanto a historicidade da narrativa bíblica.

Machen contra o Fundamentalismo

Teologicamente, Machen se distanciou das tendências políticas, escatológicas e revivalistas do fundamentalismo. Contra a direita, ele se opôs à Lei Seca, à educação do caráter protestante e à leitura da Bíblia e oração nas escolas públicas. Machen reconhecia que ler a Bíblia nas escolas retiraria o cristianismo de sua doutrina e, portanto, não deveria ser feito nas escolas.

Fazer isso com a doutrina resultaria na dissolução de questões doutrinárias. Isso inevitavelmente surgiria através da padronização da educação. Machen sabia que o controle estatal da educação era ruim o suficiente, mas "colocar Deus nas escolas" era esterilizar o evangelho.

Para Machen, a educação sobre a doutrina e a Bíblia são de responsabilidade da Igreja e dos pais cristãos, não do governo, e em uma sociedade em que o Estado não pode mostrar nenhum favoritismo a uma religião em detrimento de outra, teria que permitir que todas as religiões fossem ensinadas nas escolas, abrindo uma caixa de Pandora de novas ideias esotéricas para as crianças, ou então não deveria haver religiões ensinadas nas escolas, mantendo assim a integridade das esferas da família, da Igreja, da educação e do governo civil.

Machen também votou contra Herbert Hoover e a eliminação do ensino de línguas estrangeiras nas escolas públicas. Ele criticou o recrutamento militar como uma ameaça maior à liberdade do que a Primeira Guerra Mundial na Alemanha e se opôs ao registro de imigrantes e à coleta de impressões digitais de suspeitos de chantagem por sua conexão com o estado policial. E Machen até considerou que as leis para atravessar a rua eram uma discriminação de fato contra os pobres (transeuntes) que deveriam sair do caminho dos ricos (motoristas).

A ortodoxia de Machen

Para Machen, o calvinismo foi o principal impulsionador de sua visão libertária e de seus interesses sociais e econômicos. De fato, sua resistência ao paradigma da falsa escolha entre Teologia Liberal versus Fundamentalismo, Esquerda versus Direita, tem raízes profundas na Reforma Protestante, que poderia ser vista, em uma visão panorâmica, como uma resistência tanto ao legalismo fundamentalista da Igreja Católica quanto ao balanço resultante do pêndulo do universalismo desde a controvérsia arminiana do século XVII (muitas vezes referida como a Controvérsia dos Cinco Anos).

O ponto de Machen era que nem a Teologia Liberal nem o fundamentalismo foram propriamente reformados, tanto no sentido amplo da Reforma quanto no sentido estrito do calvinismo e das confissões das denominações acima mencionadas. Claramente há diferenças entre luteranos, anglicanos, presbiterianos, congregacionalistas, etc., mas suas confissões eram amplamente consistentes com Lutero e Calvino. Machen via tanto a Teologia Liberal quanto o fundamentalismo como um distanciamento dos ideais da Reforma e, portanto, como algo que os cristãos deveriam rejeitar por razões políticas e teológicas.

Para Machen, havia um perigo real no abuso do evangelho para fins sociais e políticos que estava (e ainda está) na raiz da Teologia Liberal e do fundamentalismo na igreja americana (e sem dúvida na brasileira também) hoje. Teologicamente, ambos representam uma ameaça para uma cultura sólida e vida intelectual.

Politicamente, ambos representam uma ameaça aos direitos e à liberdade dados por Deus. Embora os libertários cristãos que conhecem Machen gostem de apontá-lo como um dos primeiros exemplos de libertários cristãos, poucos percebem e apreciam os paralelos de resistência ao paradigma Esquerda/Direita tanto na política quanto na Igreja.

Não que Machen fosse infalível; ele certamente não era. Mas os libertários cristãos podem aprender com Machen que o falso paradigma Esquerda/Direita na Política é na verdade o transbordamento de convicções religiosas do mesmo falso paradigma que existe na Igreja. Para sermos consistentes em nossa filosofia, temos que ser consistentes em nossa teologia porque, em última análise, são nossas crenças religiosas que informam nossas outras crenças sobre como o mundo funciona.

Machen exemplificou a necessidade de uma compreensão adequada da Filosofia Política Cristã, servindo assim como modelo para o Libertarian Christian Institute - LCI (Instituto Cristianismo Libertário, em português).

Seguindo os passos de Machen

A tendência dos cristãos americanos (e também dos brasileiros) de incorporar várias ideologias filosóficas em sua teologia requer um exame cuidadoso dessas ideias contra os ensinamentos históricos da Igreja.

Infelizmente, a tendência atual é abraçar ideologias sem realmente examiná-las. Isso é perigoso, e Machen sabia disso. Os libertários cristãos têm uma dupla oportunidade: primeiro, entender a relação entre cristianismo e libertarianismo e, segundo, continuar os esforços de Machen para resistir àquelas ideologias que comprometem a verdadeira fé cristã e o papel adequado do governo civil.

[1] NOTA: No artigo “Liberalismo” deve-se entender a corrente teológica que nega doutrinas centrais do cristianismo, como a inspiração das Escrituras, bem como elementos sobrenaturais. Não se refere aos Liberalismos como filosofia política.

[2] Woodrow Wilson foi presidente dos Estados Unidos de 1913 a 1921

Originalmente publicado em inglês: https://libertarianchristians.com/2018/10/22/taking-up-machens-torch-an-archetype-for-christian-libertarians/

Em espanhol: https://ciudadanocristiano.wordpress.com/2022/09/23/retomando-la-antorcha-de-machen-un-arquetipo-para-los-cristianos-libertarios/

Para conhecer mais sobre o Libertarianismo Cristão sugiro conhecer os livros:

E os sites: